Pedir aumento é uma das conversas mais adiadas da vida profissional. A maioria das pessoas espera ser lembrada, acredita que o bom trabalho fala por si e acaba descobrindo, anos depois, que o mercado pagou mais para quem chegou depois.
A boa notícia é que essa conversa é uma habilidade, não um traço de personalidade. Ela se prepara, se ensaia e se conduz — e a preparação vale mais que a coragem.
Antes de pedir: reúna evidências

O erro mais comum é entrar na sala com uma percepção em vez de um caso. Percepção é “eu trabalho muito”; caso é “eu assumi três responsabilidades novas e reduzi em trinta por cento o tempo do processo X”.
Comece listando, dos últimos doze meses: entregas concluídas, problemas resolvidos, responsabilidades que você absorveu sem que estivessem na sua descrição de cargo, e resultados com número sempre que possível.
Se você nunca registrou nada disso, comece hoje um arquivo simples, atualizado mensalmente. Ele serve para esta conversa e para todas as futuras.
Pesquise o mercado antes de definir o número

Sem referência externa, qualquer número que você disser parece arbitrário. Consulte pesquisas salariais do seu setor, anúncios de vaga com faixa divulgada, sindicatos da categoria e, se possível, converse com pares de outras empresas.
Com isso você chega a três valores: o piso que você aceita, o valor que considera justo e o teto realista da sua função na sua região. É esse conjunto que sustenta a negociação.
Escolha o momento certo

O timing pesa tanto quanto o argumento. Momentos bons: logo após uma entrega relevante que você conduziu, durante o ciclo de avaliação de desempenho, quando você assume novas responsabilidades formalmente, ou no período em que a empresa define orçamento para o ano seguinte.
Momentos ruins: semana de resultado negativo, período de demissões, véspera de fechamento de trimestre e qualquer dia em que sua liderança esteja visivelmente sobrecarregada.
Peça a conversa com antecedência, com um pedido claro: uma reunião de trinta minutos para falar sobre a sua evolução e sua remuneração. Não emboque o assunto no fim de outra reunião.
Como conduzir a conversa

Comece pelo contexto e pelo valor entregue, não pelo pedido. Apresente as entregas do período e o que mudou na sua atuação desde a última definição salarial.
Depois, faça o pedido de forma direta e com número. Frases vagas como “eu gostaria de uma revisão” transferem para o gestor a tarefa de adivinhar o que você quer, e a adivinhação costuma ser baixa.
Fale sobre o seu trabalho, nunca sobre necessidades pessoais. Aluguel, filho na escola e custo de vida são razões legítimas na sua vida, mas não são argumentos de remuneração — a empresa paga pela função e pelo desempenho.
E evite comparações com colegas. Além de gerar constrangimento, isso desloca a conversa para a outra pessoa e tira você do centro.
Prepare-se para as respostas possíveis

Se a resposta for sim, agradeça e peça o registro por escrito, com o valor e a data de vigência.
Se for um talvez, transforme em compromisso concreto: quais resultados, em qual prazo, e quando vocês voltam a conversar. Um talvez sem data é um não adiado.
Se for não, pergunte com calma o que precisaria acontecer para virar um sim. Essa pergunta costuma revelar mais sobre a empresa do que qualquer outra: se não houver resposta objetiva, você acabou de receber uma informação importante para planejar seus próximos passos.
Alternativas quando não há orçamento

Nem sempre a limitação é sobre você. Quando o teto é orçamentário, existem outros itens negociáveis: mudança de cargo com revisão futura, bônus por meta, participação em resultados, dias de trabalho remoto, verba de capacitação, férias adicionais ou revisão antecipada em seis meses.
Negociar esses itens mantém a conversa produtiva e cria um marco para a próxima rodada.
O que não fazer

Ameaçar sair sem estar disposto a sair. É a jogada que mais custa credibilidade quando o blefe é chamado.
Pedir por e-mail longo e emocional. Esse assunto se trata ao vivo, ou por vídeo, com objetividade.
Pedir sem nenhum registro de entregas. E insistir imediatamente depois de um não bem fundamentado, sem nada novo a apresentar.
Dúvidas Frequentes
De quanto em quanto tempo posso pedir aumento?
Em geral, uma vez por ano, ou antes disso se houver mudança relevante de função.
Devo dizer um número ou esperar a proposta?
Diga um número fundamentado. Quem apresenta a referência costuma ancorar melhor a negociação.
Posso usar uma proposta de outra empresa?
Só se estiver realmente disposto a aceitá-la. Usada como blefe, desgasta a relação.
E se meu gestor não tiver autonomia?
Peça que ele leve o caso e combine uma data de retorno. Ofereça ajuda para montar a justificativa.
Vale trocar aumento por promoção?
Vale quando a promoção vem com escopo e prazo definidos de revisão salarial. Cargo novo sem revisão é só mais trabalho.
Para não esquecer:
Reúna evidências com números, pesquise o mercado, escolha o momento, peça reunião com antecedência, apresente valor antes do pedido, diga um número e transforme talvez em compromisso com data. Preparação é o que separa a conversa difícil da conversa produtiva.
Vai marcar essa conversa? Conta pra gente como foi — e o que você usaria de diferente na próxima.
Planilha Resumo: Como Pedir Aumento de Salário

| Tópico | Em resumo |
|---|---|
| Antes de pedir: reúna evidências | O erro mais comum é entrar na sala com uma percepção em vez de um caso. |
| Pesquise o mercado antes de definir o número | Sem referência externa, qualquer número que você disser parece arbitrário. |
| Escolha o momento certo | O timing pesa tanto quanto o argumento. Momentos bons: logo após uma entrega relevante que você conduziu, durante o ciclo de avaliação de desempenho,… |
| Como conduzir a conversa | Comece pelo contexto e pelo valor entregue, não pelo pedido. |
| Prepare-se para as respostas possíveis | Se a resposta for sim, agradeça e peça o registro por escrito, com o valor e a data de vigência. |
| Alternativas quando não há orçamento | Nem sempre a limitação é sobre você. Quando o teto é orçamentário, existem outros itens negociáveis: mudança de cargo com revisão futura, bônus por… |
| O que não fazer | Ameaçar sair sem estar disposto a sair. É a jogada que mais custa credibilidade quando o blefe é chamado. |

